Ricardo Ramos nasceu em Lisboa em 1978, e quem o conhece como eu já há 20 anos que estava à espera que ele decidisse partilhar o seu talento que sempre foi evidente em todas as coisas que fazia.

Num dia em madeira, noutro em ferro, papel, fibra de vidro ou pedra o Ricardo estava sempre a surpreender-nos com as mais variadas criações, que embora todos o exultassem a repetir e a desenvolver, ele abandonava por parecer perder o interesse assim que tivesse ultrapassado o desafio que o tinha levado a explorar aquele material.

Há uns anos que tinha deixado a madeira, em especial a marcenaria, e parecia querer dedicar-se à modelagem 3D. Mas parece, e felizmente, que o 3D não era um fim mas um meio de construir e desconstruir vezes sem conta e de trabalhar a mente na antevisão dos modelos que agora cria.

Agora pode-se dizer que todo o caminho que parecia errático afinal era parte de um plano, um caminho para trazer o Ricardo até onde está agora. Até ao Xico Gaivota.

A relação do Ricardo com o mar é especial! E não é de agora. Desde miúdos que preferia as rochas e as arribas à toalha e à areia da praia.

Esta atracção e fascínio foram como um chamamento para a pesca e para a apanha de percebes que começou como desafio, evoluiu para uma paixão obsessiva e transformou-se numa forma de vida.  

Tantos anos a viver no e do Mar, e com a chegada dos filhos com quem sentiu a necessidade de partilhar a sua paixão e forma de viver, começou, sem dar conta, a agir com determinação perante os problemas que impactam não só com as gerações futuras, mas com as presentes.  

O que começou por uma missão educacional de recolher alguns materiais nas praias com os filhos para fazer pequenos trabalhos manuais, com a chegada do natal foram esses os presentes para familiares e amigos.

Pude assistir às conversas do Ricardo com os filhos, cada um com um monte de peças recolhidas das praias, como se estivessem a fazer a "escolha" dos percebes, "esta é um nariz", "tenho um dente de tubarão" ou "encontrei um pé"…

O Ricardo rapidamente percebeu que todas as praias e zonas não concessionadas ou sem acesso fácil, muitas delas de uma beleza singular, acolhem toda a nossa vergonha humana em forma de lixo, principalmente de plástico.

Nestes locais o contributo do Ricardo é enorme!

Nos trilhos, arriba acima, a mochila cheia de percebes foi trocada por mochila e sacos cheios de plástico e outros materiais que não pertencem ao mar e às praias!

Ajudado por uma paixão e fascínio pelos fragmentos de plástico, além da necessidade ambiental de os retirar da natureza, está constantemente a pensar nas diferentes possibilidades para a sua aplicação.

Procura-as como se de um tesouro se tratassem, as arestas perfeitamente boleadas, as suas cores vivas ou desgastadas e as suas formas incríveis, juntamente com todo o percurso que percorreram até terminarem nas suas mãos.

O Ricardo acredita que o mar tenta desesperadamente devolver o que não lhe pertence e o que não quer, mas que se não o ajudarmos, recolhendo o que ele cospe pela força das ondas, ele terá de o levar de volta.

O Ricardo quer a natureza intocada para poder usufruir dela! E o que melhor o revela é o respeito com que ele trata o "lixo" que tira das praias. Assim que o apanha deixa de ser lixo e passam a ser peças que merecem todo o respeito. Peças que o Ricardo junta mas não manipula, não pinta, não corta, não dobra…!

E o resultado é fantástico! E nós temos a sorte de dele podermos disfrutar! Desta vez o Ricardo decidiu partilhar com todos o seu trabalho. É só mais uma maneira de ele ser altruísta e generoso.

Obrigado Ricardo

Vicente Caldeira Pires

Ricardo Ramos was born in Lisbon in 1978, and who knows him like I do, kept the expectation, for the past 20 years, that he decided to share his talent, which was obvious in everything he did.

First with wood, then with iron, paper, fiberglass or stone, Ricardo always surprised us with his creations, and although everyone encouraged him to hold on to his talent and to keep on creating, he seemed to show some lack of interest once he overcame the challenge that led him to explore each material.

A few years ago, he left aside wood, especially carpentry, and showed some interest in 3D modelling. However, it now seems that 3D modelling should be a means, rather than an end, to create and build or rebuild and deconstruct, over and over again, and also to work his mind anticipating the works he now creates.

It can be said now that an apparent erratic path was actually always part of a plan, a way to bring Ricardo to where he is now. To Xico Gaivota.

The relationship between Ricardo and the sea is special! And it goes back to his childhood, always choosing the rocks and the cliffs over the towel and the sand at the beach.  

This attraction and fascination worked like a call to fishing and picking goose barnacles, which started as a challenge, evolved to an obsessive passion and transformed into a way of life.  

After many years living at and from the sea, and with the birth of his children, he felt the need to share his passion and way of life, starting, without noticing, to act with determination towards the problems that impact not only the future generations, but also our generation.

It all started has an educational mission to collect some materials at the beach with his children to make small crafts, and use them as Christmas presents to family and friends.

I was able to watch some of Ricardo´s conversations with his children, each of them with a pile of materials collected from the beach, as if they were doing the choosing of goose barnacles, “this one is a nose”, “I have a shark tooth”, “I found a foot”…

Ricardo soon realised that all the beaches with no commercial exploration and specially the ones with tough access, much of them of a singular beauty, withhold all the shame of human kind in the form of trash, mainly plastic.

In these places, Ricardo´s contribution is enormous!

Going up the cliffs, he switched his backpack filled with goose barnacles by a backpack filled with plastic and other materials that do not belong on the beaches or the sea!

Driven by a passion and fascination by plastic fragments, aside from the environmental need to collect them and keep them away from nature, he is always thinking different possibilities to use them in his works.

He looks for them as if they were a treasure, with its perfectly rounded edges, vibrant or worn colours and incredible shapes, alongside with the journey they had until they ended up in his hands.

Ricardo believes the sea is desperately trying to give back what does not belong and what is not wanted, but if we do not help the sea shall have to take all of that back again.

Ricardo wishes for an untouched nature that can be enjoyed! And what best reveals this, is the respect with which he takes care of the trash collected at the beaches. Once he collects it, it stops being trash and becomes pieces worth of respect. Pieces that Ricardo puts together, but does not manipulate, paint, cut or fold.

And the result is amazing! And we are lucky to enjoy it! Now, Ricardo decided to share his work with everyone. And this is just another way in which he is altruist and generous.

Thank you Ricardo

 

Vicente Caldeira Pires